domingo, 26 de dezembro de 2010

A Rua






Ao se abrir a noite sobre os tetos ela vai só,
achar seus fantasmas em cantos esquecidos,
ocultos na luz dos postes, na sombra e beiras
das sacadas, debaixo das copas, nos batentes.

Por endereço tem o domicílio dessas gentes
sem rosto, sem pais, filhos, esposas, maridos,
ninguém esperando nas janelas, nas soleiras
enquanto ela vai e vem trazendo o mesmo pó.

Tem em si duas medidas: uma funda de vazio,
marco nas palmas das mãos de acenar adeus.
Outra; inexata, a medir a solidão de quem fica.

A rua separa em mim duas medidas que eu crio:
uma, do lado de lá, para o tempo que se perdeu;
a outra bem aqui, onde me reparte e multiplica.




Fotografia: Rua do Bom Jesus - Recife - PE




segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os Dias








Depois desta década estarão reservados outros dias aos nossos destinos, enquanto esperam se aprontam, e baterão às portas trazendo as memórias. As somas do que perdemos e angariamos.

Nesse futuro, nenhuma perda seja mais do que a necessária, para que tenhamos certeza do quanto foi importante ter sido parte da história de alguém ou de algo. Mas, que nenhum apreço banal e improfícuo nos torne amargos e descrentes de nós.

Que todos os ganhos não sejam apenas e tão somente transitórios, desses que desabam, que enferrujam, desvalorizam, desses onde as traças pastam. Desses que o relógio revela aos poucos por mais que  se tente adiar  sua  naturalidade. Reconheçamos, o que é nosso verdadeiramente, é a capacidade de transformar o que somos por dentro. Porque o tempo é uma linha ininterrupta, reta, não muda e nossa vantagem em relação a ele é que podemos modificá-lo em nós.

Demos aos nossos dias as melhores condições para as memórias de pequenas ou grandes realizações íntimas, de paciência quando tudo parecer revolto, de felicidade quando forem poucos os motivos, de perseverança quando obstáculos se erguerem, de inspiração na resolução de problemas, de sabedoria na expressão da palavra, de atitude quando a palavra não for suficiente, de ternura por hábito do amor que nos é intrínseco, de abnegação a uma causa  justa e inerente a toda a vida que nos cerca, de bom aprendizado, ainda que por meios dolorosos. Pois, inexoravelmente, os dias devolverão o que lhes dermos quando baterem à nossa porta amanhã, e depois, e mais tarde. Serão, certamente, mais bem acolhidos se nossas memórias forem as do que conseguimos ascender todo dia, do que simplesmente vazias.

Tratemos os dias com o mesmo cuidado com o qual eles vêm nos acordar. Neles se fazem a vida e a ausência dela. E nelas, são eles quem nos contam ao passarem.


 
Feliz Natal, e que em 2011 as histórias a serem construídas, de cada um de nós, sejam repletas de boas memórias.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Essência










Acho que sempre esperei sentir o cheiro do melaço da cana na minha primeira respiração. Eu esperei ser aquecida em roupinhas de cambraia, bordadas à mão pelas avós, tias, madrinha e vizinhas. Um gosto irrecusável de florada de caju na boca. Esperei que meus primeiros brinquedos: meu chocalho, a caixinha de música... Fizessem o mesmo som da garganta da acauã... Do curió. Acho que sempre desejei que o primeiro lugar destinado a mim na casa, tivesse uma grande janela de onde eu pudesse olhar o colorido de coroas-de-frade no quintal. E num domingo, quando todos se reunissem para comemorar as chuvas, vindas das preces a São José eu passaria de mão em mão, e cada uma delas cuidaria de me empanturrar de rapadura batida, calda de doce de jaca, suco de umbu cajá, pamonha de milho fresco... E com mais um pouco de tempo, o interminável enxoval, feito para o meu nascimento seria substituído pela carícia do algodão cru, fiado em teares nos fundos de casa e tingidos em tachos fumegantes de barro.

Mas, por força do êxodo, tudo ao que os meus sentidos pueris se ativeram era tão cinzento e frio. Tais informações não coincidiam com as que os meus genes já conheciam. A chuva que caía não era rezada, dela não se esperava abundância no roçado. Não, ela não faltava, como imposição de castigo imerecido. Era constante, acabrunhada e, excomungada. Refratando o asfalto feito rio, cujas margens brotavam concreto. Nenhum júbilo lhe abria as bocas nem o chão. Ela era tão sem graça, tão sem cor. Nenhum arco-íris a precedeu, só a fumaça.

Meu lugar na casa mostrava quadrados de grades, pelas quais eu via alvenaria, alvenaria, alvenaria, antenas e muitos fios, irrisórios pombos, pardais ocasionais. Uma selva de almas, nas mãos de nenhuma das quais a minha passou.

Tudo cheirava a Tietê. E os gostos, fuligem. E eu era tão nua. Tão farta da falta da identidade que meus genes conflitavam.

Quase fui triste, como se a ausência de explicação para mim não fizesse sentido. Temendo que quando, por ventura, um dia fizesse, eu perdesse todo o sentido.

Ilustre desconhecido, o destino é um poeta; fez do sal das salinas daqui, o mesmo tempero das minhas veias. Agora me basto. E do meu lugar jamais fui tão plena. É ele quem me conhece os canaviais e coqueiros, o mar, o cerrado e a caatinga.

Voltar à minha terra acidental de nascimento nunca é como me visitar. É uma gozadora concessão do destino a que ela me visite. Ela, estrangeira que perdeu a bússola na pressa de partir e ir se partir, como quem não se quer mais.



"Somos quem somos porque ainda sabemos o que somos".

Carinhosamente dedicado a Marcelo Rocha.








domingo, 24 de outubro de 2010

Desta Vez





Vou dizer-te só esta vez que essas violetas
são o sopro dos sinos cantando o passado
vindo acordar a luz para os dias de campo
Que este tempo beijado das borboletas é o
infinito conspirando o cansaço benfazejo
de um gesto de morte.
Assim, elas valem o chão.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

Por Resposta









Pensou consigo mesmo que o silêncio omitia, não sabia como era ponte, ora, muro. Palavras, signos: superficialidades inalcançáveis à língua. Em parte a pele atenta, casualidade, exatamente. O que cabe no querer é irrelevante, mais vale a desmesura. Meia volta na maçaneta... Faça-se água verde onde peixes aflitos lhe venham mordiscar a índole! À sombra do céu, a vida é um instante, por instantes estanque, é preciso gastar todas as angústias para que ela mane. Por isso caminhou suas pontes, cercou seus muros, em nada majorando o amanhã, desde ontem ele chegava, indiferente a que o pulsar seja o primeiro, ou último, ou único. Coração não distingue medidas, e as relatividades têm o hábito se esconder na boca. Páginas se consumam no final. Virá-las-ia sem epílogos nem quebras ruidosas de promessas.




sábado, 9 de outubro de 2010

Deus-Pacto










Há uma ruptura, também, clareza e vertigem
nos olhos que me destes de olhar acima
para o lugar que convém à partida

Tendo ficado, contudo
me misturo
perduro

Satisfaz o telhado de estrelas ao meu escuro

Pois não te sei
Se sabes quando morro
se somente adormeço, não sei, Senhor
Nada de onisciência sei
não saber nos isenta

Minha culpa é que respiro
a Tua, a que te faz esconder o nome
como se foras homem
Te faz parecer homem
como se foras Deus

Apenas, sei que Teus pecados são os meus
os meus
onipresentemente teus
por tê-los criado no mesmo feitio
que em mim te criei

Hoje elas não vieram
deixaram o vento em paz
Escuta como são bondosas essas Tuas aves
recolhem-se por uma partícula perdida a sós

Não queria ser a harpa
me aprazia as cordas
intervalo de dedos e braços
talvez o toque
onde eu te pertença do cerne à raiz
Campo ao grão
solos de silêncios para uma única voz

Calou-se, tal segredo, na foz
na margem, o rio
nenhuma gota se mexeu
galho algum se partiu

Nada fecundou que conhecesse o seu destino
é por isto que hás de ser como se fosses preciso

Basta-me uma lauda
marcada entre os santos
em tanta lonjura de ti
Somente um motivo
para dizeres que És
enquanto eu tenha sido

Apaziguados nesse ato
de mim para Contigo
de Ti para comigo
selemos o nosso pacto
então serei, serás feliz.



Foto: Reinaldo Lopes Moreira




sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ao Pé da Nossa Janela





O que você vê ao olhar pela janela? A rua? As pessoas que passam? As outras janelas? O mar? O verde de um parque?
É olhando pela janela que muitas vezes descobrimos novas possibilidades, novas formas de ver o que se passa lá fora.
É na janela da alma que também olhamos pra dentro de nós, para o que somos, temos e sentimos.
É também numa outra janela que temos o mundo na ponta dos dedos e ao alcance da vista. É na telinha de um computador que descobrimos que o outro lado do mundo é logo ali!
E assim vivemos, de janela em janela.
E com essas visões, nós (Cláudia e Jeanne) descobrimos uma nova possibilidade. Descobrimos que poderíamos deixar marcada, guardada, impressa de alguma forma, nossas visões de mundo. E criamos nossos “blogs”, janelas nossas para expressar o mundo interior e exterior a nós.
E por conta de mais uma janelinha, um dia nossos olhares se cruzaram, e percebemos o surgimento de uma parceria, de olhares, quem sabe. Uma brincadeira de olhar a janela da alma humana que foi ficando seria ao ponto de merecer o registro em livro.
E assim nasceu o “Ao Pé Da Nossa Janela”: um projeto que tem como elemento básico a expressão do sentimento que o texto desperta, através de uma viagem narrada e musicada, a partir do poema e de volta a ele. Poesia e melodia vão se incorporar em lugares muito próprios da sensibilidade e da percepção do ouvinte, numa transcendência para além dos vocábulos e das notas musicais. A intenção sempre foi de inovar e, construir um livro para ler, ouvir, ver e sentir. No projeto original temos uma compilação de nossos poemas com músicas (em um áudio book) que fogem ao mero papel de serem equivalentes em notas musicais para os vocábulos dos textos e buscam despertar sentimentos de alegria, melancolia, tristeza, nostalgia e todo conteúdo emocional dos poemas, numa tradução através dos acordes e harmonia das músicas compostas exclusivamente para cada um dos textos.
E agora, porque até os sonhos são construídos em partes, apresentamos uma parte do projeto, o livro com os nossos poemas.
E é com grata satisfação que convidamos a todos os amigos, leitores, blogueiros e afins para o lançamento do “Ao Pé da Nossa Janela”. Uma co-produção Recife-Fortaleza que é uma parte do nosso sonho.
O lançamento será no dia 29 de novembro no Centro de Convenções de Pernambuco (Recife) às 18h.
Esperamos que apreciem nosso sonho e nosso livro. Os que não puderem estar lá conosco para adquirir um exemplar, procurem nas livrarias da sua cidade e aos que não acharem nas livrarias, ligue para todas elas fazendo pedidos (risos) ou nos envie um e-mail (conversemos@aopedanossajanela.com) e aguardem novas surpresas e mais novidades no site “Ao Pé da Nossa Janela”.


Fotografia: Daniel Bezerra






sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Amor...









É ainda essa lentidão de espera
tentando fazer em um só sábado
os bem-me-queres da primavera
dele mesmo, um ato consumado.

E eu pensei distinguir nos amores
de tanto guardados tido perdidos
a errática além de ou aonde fores
um luto azul para ser usado rindo.

Mas o que é essa tal essencialidade
senão a calma com que a ferimos?
Raspando a alma por uma verdade.

Imenso ou precário, todo ou em parte
nem por pretensão a ele despedimos
Dias, é cansaço, mas em outros, arte.



Tela de Cecilia Braun






quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Contradição







Isso de não-razão se esclarece nesse
arrepio da gente e, faz do imenso absurdo,
palavra sem boca, volúpia sem pernas.
A verdade categórica de tudo, sem uso.







terça-feira, 7 de setembro de 2010

De Sal e Luz









Repete devagarzinho
no ritmo das ondas
movimentos de sal e areia
ainda tenho nas mãos o estalido da luz
cavada entre as nuvens
esquecida da noite.







sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Estado Bruto



Finalmente!


Pois é... Tenho ficado distante "do Brisa" no afã de concluir este projeto que se iniciou há pouco mais de cinco meses, até que ele se materializou. Com fotos de Daniel Bezerra, editoração e impressão da Editora Babecco, em novembro, ESTADO BRUTO estará nas livrarias. Sinto enorme prazer em dividir este momento com os leitores assíduos, amigos e visitantes ocasionais, pois este evento marca o início da aventura desta bióloga aqui pelos caminhos da prosa literária, em uma base mais realista e sociológica.





sábado, 31 de julho de 2010

Sobre o Tempo





Se eu conhecesse o que está no minuto, apenas
e sendo cada um o último tivesse todos os poemas
que eu não tive tempo de escrever.

Quem me dera litros de mágoas gaseificadas
sabor groselha, caramelo, chocolate, goiabada.
O que mais eu haveria de querer?

E se eu aprontasse o mais perfeito colossal deslize?
E sendo o derradeiro, celebrasse todas as tolices
que eu deixei de cometer?

Mas, quem me dera aquele largo riso infante,
ocupando a boca de felicidade tão grande,
que ela ficasse sem meios de dizer.

E se me acometesse uma sanidade tardia?
Singular? Seria a melhor e a que eu mais queria:
a mais alucinante de viver.

Quem me dera os pés calçados de vento
e na rapidez de um claro pensamento,
o que passou e o que ainda vai acontecer.

E se para aqueles sonhos esquecidos
houvesse uma cura? Um comprimido?
- Três vezes ao dia para não envelhecer! -

Quem me dera dores bem pequenininhas,
eu as guardaria com botões e poesias,
e as contaria antes de adormecer.

Quem dera me aguardasse um abraço no frio,
quando eu for bem velha, e os meus filhos
tenham desistido de crescer.







segunda-feira, 12 de julho de 2010

Úmida



Cuida
Que entre as coxas
vibra navalha
cio
pele
e eu me bordo de chuva.







sábado, 26 de junho de 2010

Ensaio do Meio








Pleno? – O que nasce de um ovo
nas pétalas, adereços de crisálidas.
O quarto ciclo, que não consigo,
nesse relógio o é –

Plenos são os favos de vinho e
dizê-lo, dividir o Sol em ecos de dias,
videiras em outonos, seria pleno.

Que há nexo ou audácia na boca:
uns acordes egressos dos canários
em grilhões plenos, deveras.

O desígnio equinocial do milho,
nacos de algodão, nimbos de verão...
Que o que se completa em si é pleno de si:

meio-dia, meia-noite, meia-lua,
meio-fio, meia-água, meia-nau,
meia-hora, meio instante –
pouco e meio – em pleno meio
passo de exceder-se plenamente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Aguaceiro








Depois que essa
lágrima lavrar a dor;
os crisântemos.





sexta-feira, 11 de junho de 2010

Prioridades









Primeiro: um dia inteiro a fazer,
que do cimento, dos segredos;
andaimes de teias indulgentes,
trescale a respiração dos dedos.

- Amiúde, um vôo fora do vestido -
Encostar-me às pedras comovidas;
astros clandestinos destronados,
ateados dos mil tons de violeta.

Segundo: tão somente a tua índole,
de água e infinito, de antes do sol,
dos sucos do trigo, me dar a beber.

Terceiro: buscar o verso que se bole
no vento - crescente sopro, dó ao dó -
Depois, eu precisarei envelhecer.



 

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Soneto Nordestino








Tenho aqui dentro comigo, moço
fome que é só minha, de mais ninguém
Ela é algo maior que um talho, que nem
toda enxada arreganha no seu aço.

Algo menor que a dor, feito caroço
solto no ronco da barriga que ela tem.
E se mexe, procissão. Chuva que não vem.
Se cai da minh'alma um estilhaço

do chão a me esperar a carne, passa não.
Nenhuma esmola me paga. Nada, moço!
Desabafo sertanejo é só lamentação.

Duro o céu da terra de urubu e arribação
bebeu a sede do capim, do gado e do poço
e essa água na cara é que fere minha mão.



quarta-feira, 14 de abril de 2010

Só-Mente









Alguém chamou por Ninguém
nas ruas, com insistência.
Amasiaram-se logo cedo,
nasceram Solidão e Ausência.
Alguém se consumiu de amor.
Ninguém roçou a boca de um poema.
Alguém chorou com calma.
Ninguém aparou uma lágrima.
Alguém se foi, virou a esquina,
Ninguém fechou as cortinas.
Solidão deitou-se à calçada,
anoiteceu, só Ausência a abraçava.









sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sobre o Insólito



Tudo bem. Confesso: tenho enorme dificuldade em me expor a novas tecnologias sobretudo, as de informação em massa, para as massas. Preconceito, timidez, ou aquele medo infantil dos monstros que se escondem no armário sempre que a luz está apagada, chove e os pais não estão em casa. Mas lá no fundo, no fundo do armário esconde-se, em verdade, uma preguiça feroz de processar e guardar informações que são as necessárias, receio de não saber o que fazer com as que não são e a certeza de que o cérebro não tem filtros. Mas, todavia, sempre podemos lançar mão do auxílio luxuoso do 'ponto de vista'.

Há algum tempo, arrisquei publicar meus textos num determinado site. Alguns escritores que alí publicam, comentavam, criticavam, elogiavam, o contador de visitas contava e eu nunca sabia se os números se referiam a leitores assíduos ou a amigos assíduos. É! Assim; distintamente separados. A virtualidade deixa uma névoa, às vezes, sobre as formas de relacionamentos virtuais e até consegue desfazer o conceito de redundância (aplicada aqui). Ah, mas foi ótimo! Aprendi a ler o que não estava escrito, aprendi a ler a intenção do texto o que, necessariamente, não quer dizer 'mensagem' do texto e mergulhei num espaço onde a subliminaridade transcendia o subliminar, em meio a centenas de milhares de informações.
Algo sempre se oculta entre um parágrafo e um ponto tanto quanto algo pretende se mostrar.

Certo dia, recebi um comentário de um rapaz de muito longe, lá das terras do Sul e lá fui eu, em um "clic", retribuir a 'visita' e conhecer seus escritos. Aquele senso de humor quase pueril, inteligente e desprentensioso me emocionou. Era um tipo de humor tão diametralmente oposto ao que se costumou chamar de humor. Não havia a lei do Gerson impregnando os textos. Não havia ninguém tentando ou levando vantagem em cima de alguém. Não havia o apelo ao sexo. Não havia formas vocabulares discriminadoras, simplesmente porquê não havia a intenção de que houvesse qualquer dessas coisas que a massividade das informações se habituou a chamar de "humor". Ele me fez rir sem nenhum desses artifícios. Fiz, então, um comentário no seu texto "SOCORRO, SALVEM A AMAZÔNIA!". Qual não foi minha surpresa ao receber, dias depois, um e-mail do escritor. Senti-me tão importante, um grão de areia que o vento ergue e o separa dos demais no deserto do excesso de informações.

A roda girou, o vento girou e neste meio tempo, íntima, secreta e discretamente, desisti de voltar ao site para publicar. Outra surpresa: um e-mail deste mesmo escritor cobrando a minha 'presença' no site e a lembrança de que nossa 'proximidade' se deu justo em função de 'pontos de vistas opostos.' Este escritor de nome Plínio Menegon, presenteou-me com dois textos, um que compartilho agora com vocês, o outro, encomendado, será escrito especialmente para o Brisa Nordeste.

Onde está o insólito? Na natureza do texto com o qual fui presenteada, na data em que ele ficou diponível. Um verdadeiro presente.

Envelheço a cada segundo, a cada sorriso do sol, inconscientemente, mas há aquele dia em que energias ocultas, através das pessoas, insistem em que eu não esqueça disso e me mostram, de uma forma exuberantemente insólita, que para o insólito, também, é que fomos feitos.


"O HOMEM QUE QUERIA SER EU"

Plínio Menegon

-Akito Obara e sua esposa, Oky, viviam do que plantavam em seu pequeno sítio, encostadinho à cidade e era nosso vizinho mais próximo. Aprendi a gostar daquele japonês logo que ali chegamos, quando eu tinha menos de 10 anos. Nutria por ele uma simpatia e não sabia explicar se era de irmão (que não tivera), pai ou avô.

-Sempre sorridente e disposto, Obara costumava dizer a todos do bairro que gostaria de ser um homem como eu, palavras que só vim entender anos mais tarde, quando a juventude foi ficando para trás e a amizade e família ganharam outro significado.Sempre o tratei com respeito, sem deixar de lhe contar uma piada, um fato engraçado, um causo. Sem parentes por perto, era eu quem lhe socorria quando se fazia necessário, sem nunca olhar ao relógio, e lia para ele os jornais em voz alta. E não fazia por recompensas, seu sorriso de satisfação me bastava.

-Nos víamos pelo menos duas vezes ao dia e quando, por um motivo ou outro isso não acontecia, um de nós procurava saber o que havia acontecido, sem a necessidade de usar palavras. Palavras que ele economizou até quando foi covardemente agredido por dois marginais que lhe roubaram o resultado da venda das hortaliças; recusava-se, sorrindo, a revelçar os nomes, temendo pela minha reação que mais tarde, acabou acontecendo.

-Casei e constituí minha morada mais perto de Obara. Quando do nascimento de minha filha, ele chorou em meu ombro, de contentamento e dizia com seu português atrapalhado que agora sim, estava completa a grande família.

-O que Obara nunca chegou a saber é que, na verdade, eu o invejava. Invejava aquele sorriso sem maldade e seu coração bondoso. Invejava suas mãos calejadas sem reclamações. Invejava sua calma diante de um problema, dizendo que: 'por causa disso, o mundo não iria acabar. Que não havia mal em que durasse toda a vida.' Que havia coisas mais importantes que um monte de dinheiro e que a arrogância é uma arma perigosa, pois envenena a alma, por mais limpa que seja. Eu invejava aquela sabedoria oriental que abastecia de sol meus dias nebulosos. Obara sempre estava certo e eu, covardemente, nunca tive a humildade de lhe dizer isto. Nem ao menos um obrigado.

-Naquela tarde de domingo, quando brincavámos de pescar em um açude na sua propriedade, por imprudência, deixei minha pequena, então com seis anos, aos cuidados do meu filho de doze anos. Ela acabou resvalando de seus braços e caindo na água. E foi Obara, sem saber nadar, que se jogou antes de todos e a salvou. De onde eu estava não sei se o resultado seria o mesmo. Ao tentar voltar à margem, o velho amigo acabou por enroscar o pé numa rede de pescaria, abandonada no fundo das águas e presa a um galho de árvore.

Agora dou sentido à narrativa colocando no título um ponto de interrogação.

O HOMEM QUE QUERIA SER EU?

Igualzinho a você, Obara. Mas, nem vivendo duas vezes oitenta e quatro anos, chegarei sequer aos seus pés. Você era um rei e eu não sabia.

Muitíssimo obrigada, Plinio!

domingo, 14 de março de 2010

Profana








Retesada sob o manto dos santos
há uma terra de estuque e altas horas
aonde vai a alma montada em raios
noite a dentro, alvorada à fora

Horas em que nossos sexos se dão
Que se dão as bocas aos vermelhos
Dão-se gemidos lambidos às paredes
e os nossos dedos, a orgânicos lagos que
prontamente, nas horas úmidas, se dão

Que estremeça o amanhecimento
amontoado ao pé do hemisfério
Meu ofício é tua alma, noite e dia
porque mesmo antes dos mistérios
uma profecia contava que virias

E ainda que de temor ou fúria
mais que tesão ou desdém
eu te morda a língua, anjo
ou te beije a língua, homem
sem amor, eu nunca, nada seria

Assim seja para o sempre todo
Amém!




Foto: "O Salto", de A. Brito (Palavras, Todas as Palavras - Wordpress.com)





segunda-feira, 1 de março de 2010

Ciclos








Conto em vários dias
o que se fecha em vários ciclos.

Eu que era uma pequena gota
escoada para além do rio
como só um rio faria,

a princípio, não me soube,
não me vi esvaindo
por paredes abissais,

até que o vácuo pendurado
nos fios elétricos
me desvendou os pardais.

Era uma vista assim, acanhada,
uma centelha acesa azul
na antimatéria encarnada.

Noite, o corpo repousava.
Dia, andava sob lajes
que mais tarde se fechavam.

Eu caminhava muito rápido,
o tempo variava,
mais trôpego, mais lépido,
mais outro, como tudo estava.

A partir de então, já me sabia:
o que me fecha em vários ciclos,
subsiste em muitos dias.






quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Exílio







Há só um lugar no mudo
no qual eu me refugio
e tudo faz mais sentido.
Às vezes eu me extravio.

Velas, às vezes, me unem
à sortes que não preciso
mas não atente a estes fatos
são ajustes de equívocos.

Às vezes, danço uma valsa
em telhados de precipícios
– Adágio para chuva e colibri –
do impreciso ao início.

Há só um espaço na vida
onde eu me vivencio
desprendo as velas do cais
e quando vou te visito.





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Minutos de Silêncio








Há textos que se escrevem em silêncio, afinal. Não aquele silêncio físico da inaudibilidade, mas o factual, atávico, tão primordial e peculiar da impressão digital.

(Ele rola e rola a aliança no dedo)

Eu pondero sobre os lótus não nascidos, a ignorância da água sobre a potencialidade da flor. O sol, decerto, jamais se negaria a morrer onde começa a noite, ao redor de um pistilo de lótus, até que este fosse o fio das notas do seu odor.

(Estamos satisfeitos, obrigado)

Não se retoca, não se corrige a latência. O silêncio fala no modo como se faz e não pode ser feito de forma diferente de calar-se numa atitude de quem não roeu a água.

(409, não sei por quê o número me chama a atenção. Somo, multiplico, divido, diminuo, decido: noves fora, 4.)

(Nenhuma sobremesa, senhor?)

A opção que resta à água é não ter que escolher entre duas possibilidades de uma proposição: sim ou não.

(Duas, um café, e nada para mim)

Eu pensava que o deserto de um Ser fosse não ter alguém com a boca à espera de uma palavra sua. Pensava que pensar era ato contínuo à expressão das coisas do lado úmido do porvir, mas isto foi antes de conhecer palavras insolúveis às coisas do pensamento.

Em silêncio, ele girava a aliança, gramaticalmente mergulhado, talvez, nas palavras insolúveis às coisas dos seus pensamentos.

Como o talvez seja a certeza da dúvida, nossos silêncios, enquanto esperávamos o último pedido, eram a continuação de um texto que se escrevia cotidianamente para um futuro de água ou de sol.

Onde estamos a noite anoitece primeiro do lado de fora.

(Pode trazer a conta, agora)

A madrugada deriva imprópria de palavras apenas úteis. Só as crianças e os poetas conseguem desintegrar estrelas e refazê-las libélulas.

O resto é monólogo prolixo de vidro.



Inspirado nos textos "Da Luz dos Olhos à Janela da Alma I, II e III", de Cau Alexandre.






domingo, 31 de janeiro de 2010

Poeminha Azul









Pelos arcos do coreto passa um pombo azul
o azul passa no pombo e o vôo é todo azul.

As linhas das pipas cortam a tarde azul
a euforia de correr pela pipa pratica um riso azul.

O velho olhando a praça tem olho de olhar o azul
todo olho numa praça parece ser azul.

Passa um gavião por onde o azul passa
na distância, fim da tarde, a montanha é azul.

A rua leva a vila, passa o pombo, o gavião passa
o balanço da praça balança azul.

Toda criança é azul.
Todo velho é azul.

Toda lembrança de criança deveria ser azul
todo velho deveria soltar pipas ao céu azul.

Toda rua deveria ter duas idas
e várias voltas e deveria ser azul
toda vila deveria ser tocada por um velho realejo azul.

Todo cinza deveria ser azul
todo dia deveria ser azul

Todo esquecimento deveria ser azul
e a lembrança uma nuance de pintar o azul.

Toda saudade de criança deveria ser azul
a de um velho vir numa aquarela
marrom-azul, roxo-azul
preto-azul, azul-azul.




Dedicado à Fá Lopes






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Contexto




Um texto
uma pausa
na porta
na tinta
no cesto

Íris do arco
da outra

Molhando...
À míngua
mão no céu
da boca

- gota a gota -

Um grão
deflora a ostra
pérola fica

Fim da gênese rota...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Noite Em Pleno Dia




A pequena cidade interiorana entregava-se à remissão da pasmaceira provocada pela alta temperatura. Corria o ano de 1889. As ruas calçadas de paralelepípedos tremulavam e ardiam. Apesar de o mês ser propício a alta pluviosidade, até aquele momento nenhuma gota de água se derramara sobre os canaviais e plantações de abacaxi. Poucas portas de lojas do comércio se mantinham abertas. Era uma hora em que os lavradores descansavam seus facões e enxadas e se sentavam à sombra para comerem suas refeições frias.

As donas de casa preparavam os filhos para irem ao grupo escolar, ou cuidavam da cozinha. Havia ainda um pequeno contingente de mulheres que se sentava à sombra dos beirais dos telhados que cobriam as casas simples, caiadas em tons claros, para aproveitar a brisa fresca vinda do mar, e para saber e informar sobre a vida social do lugarejo.

A velha senhora arrastou uma cadeira de carvalho da mesa nua e a postou diante da janela, no interior da casa. Da janela e da porta aberta via-se fotos antigas de paisagens, impressas em pratos de porcelana. Como a maioria das casas da cidade, não havia jardim, e o quintal guardava uma viçosa horta de legumes e ervas medicinais diversas. Ela é, sem contestações, uma das moradoras mais antigas do lugar. A história de sua família remonta à época da colonização. Ajudara a nascer muitas crianças, e por várias vezes, em épocas de colapso, fora voluntária no pequeno hospital que ficava do outro lado da cidade, próximo ao porto, muito contra a vontade do pai e depois, do marido. Este era um homem de temperamento arisco, seus silêncios e dissimulações indicavam que estava envolvido em alguma trapaça de jogo ou com outras mulheres. As crises passavam e eles seguiam suas vidas. Ela, na lida com os filhos, agora, com suas próprias famílias constituídas, moram e trabalham na Capital e ele, lhe trazendo presentes, após dias a fio fora de casa, até que a doença o prostrara, e seus dias se resumiam a esperar o dia seguinte, ao lado dela. Àquela hora em que já o asseara e alimentara, repousava os olhos de sua existência, olhando todo o mundo que na janela se lhe apresentava.

Dalí há instante, o bonde passaria sobre a antiga trilha de viajantes e colonos e partiria com seus bancos de madeira vazios. Ninguém ia e ninguém vinha.

O Chefe de Polícia se despediria da jovem esposa à porta da casa e ela sairia, com seu vestido estampado, levando nas mãos o almoço do pároco, recém chegado a paróquia do bairro, lá se demoraria por cerca de duas horas e voltaria com o rosto soturno e levemente ruborizado, não traria nada nas mãos. Cumprimentaria os conhecidos que encontrasse no caminho sem lhes olhar diretamente.

O Gerente da Empresa de Correios e Telégrafos, homem alto, de traços finos, ombros largos, se apresentava sempre impecavelmente vestido, atravessaria a rua e se encontraria com o filho do dono do Armazém Central, tomariam uma charrete de aluguel e seguiriam juntos pela estrada que vai dar no porto. Retornariam por volta das oito horas da noite, e a velha Balo, ama de leite do jovem, lhes serviria o jantar na cozinha, se recolheria e eles se despediriam longamente após mais uns tragos de conhaque.

A filha da dona da casa de prostituição; moça pálida, de faces estragadas pela acne, sairia a tratar das necessidades dos negócios da mãe. Antes de conhecer certo cigano, que por lá encantara muitas mulheres tanto quanto provocara desgosto a muitos homens, era uma criatura alegre, inventiva e ousada. Trazia sempre uma resposta pronta às ofensas e piadas que recebia dos pretensos puritanos de seu convívio. Então, ela contava dezessete anos. Agora, aos vinte e oito, tinha atitudes tão pálidas quanto sua aparência. Não se casara e nem pensava em fazê-lo, nenhum homem seria, nunca mais, merecedor de sua confiança e afeto, pois os conhecia mais profundamente do que as mães e esposas dos clientes frequentadores do comércio de sua mãe.

O maior criador de cavalos da região entraria na mercearia no fim da rua com dois peões e pediria para si o prato de sempre. Sua tranqüilidade confundia-se com frieza. Seus olhos argutos, penetrantes, são olhos de quem precisa prever intenções. Ao que se sabia sua mulher, acometida pela tuberculose, se tratava no sul do país com a assistência pessoal de sua única filha. Verdade, é que nada se sabia daquele homem de cinqüenta e oito anos, a não ser que tinha influência na política e que ia à casa de prostituição com a mesma frequência com que ia à igreja, à qual fazia generosas doações sempre que solicitado. Após o almoço, acendia um charuto, dirigia-se ao balcão e perguntava, polidamente, pelos familiares do proprietário, falavam de negócios e política. Os homens que o acompanhavam, como de costume, sairiam primeiro, olhariam a rua, colocariam seus chapéus de feltro gasto e montariam seus cavalos. O patrão seguiria entre eles de volta às suas terras.

Foi assim que naquele dia em que o céu sem nuvens ostentava uma lua cheia e branca e o sol principiava a abandonar seu cume, uma grande quantidade de pássaros, em bandos e desgarrados, sobrevoava a cidade oferecendo indícios de que muitas rotinas se desfariam para sempre.

Foi assim que no momento em que a lua começou a devorar lentamente o sol, as sombras mudaram do lugar de costume. As galinhas começaram a recolher suas ninhadas, e galos cantaram como se fosse chegada a aurora.

No breve período que durou o evento, nunca antes presenciado naquelas paragens, personagens anônimos e conhecidos daquela pacata cidade rural quedaram-se em pensamentos de fim de mundo. Seus desvios de comportamento para tão longe da conspiração ordeira e coletiva da convivência social lhes pesavam na consciência e na carne.

O grande criador de cavalos enterrou o rosto na crina do alazão lamentando ter que se afastar de suas posses num momento em que todos os planos de sua vida começavam a dar frutos. Lembrou-se dos assassinatos das famílias dos colonos, dos desaparecimentos de concorrentes políticos, de como algumas de suas mulheres eram bravas no momento do sexo. Soluçava e relatava aquelas lembranças em voz alta.

A moça pálida encostou-se à parede da casa vizinha à da velha senhora e orou por si, pelo filho abortado, por sua mãe e por sua amante, a oração mais verdadeira que um ser ateu podia orar.

O gerente da Empresa de Correios e Telégrafos, abraçado ao seu frágil amigo, beijava-lhe os lábios prometendo que encontraria com ele em algum lugar.

A jovem esposa do Chefe de Polícia largou os pratos amarrados em panos de cozinha e olhava tudo em volta com olhar perdido, chamando baixinho o nome do homem que lhe fizera fêmea e santa. Mas o pároco não ouvia, flagelava-se diante do altar-mor da igreja com fortes socos no peito, onde a batina se encontrava rasgada.

A velha senhora não se movera de sua cadeira, apenas pensava que morrer daquela forma não doeria mais do que nascer, ou viver da forma como tinha vivido.

O eclipse durou aproximadamente uma hora. Aos poucos a lua foi devolvendo as fatias tomadas ao sol. Enquanto o dia voltava a ser dia, aquelas pessoas jamais puderam voltar a ser, cada uma, o mesmo de antes.

E tudo porque o mundo não acabou.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Felicidade




Felicidade não é quando a melancolia esmaece,
nem é quando o desalento perde a persistência.

Não é, igualmente, a comemoração pela tristeza
desprezada a um momento em que não acontece.

É quando eu, sentada à entrada da tua alma,
e me dás a olhar lugares sabidos, antigos,

com a surpresa de trilhar caminhos antes
despercebidos, estou bem ali e mais nada.

Felicidade é quando a madrugada em seu rito
cantante, de primeiros pássaros de todo dia,

pousa na janela (meus olhos voam nos teus),
e apenas tu, eu, e a felicidade sabemos disso.


Dedicado à Cau Alexandre




sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma História de Amor




Não foi por um acaso que se encontraram. Ela sonhava um moço encantado, olhar seu rosto no riso dele espalhado, no seu corpo, as mãos dele lado a lado. Ele já estava desesperançado, certo de que o tempo de amar e ser amado havia, para sempre definhado no passado. De tanto vento que soprou, o último o levou numa vela crestada por incontáveis horas atrasadas ao encontro do destino esquecido. Foi a paixão dos sábios que eles viveram. O amor dos loucos que os consumiu. E toda estrela que no céu ardia tinha um quê de dó pelo que se destruiu. Era uma concha velha que ninguém ouvia. Era uma praia onde ninguém nadava. Havia sombra em que ninguém deitava, e sobre as falésias ninguém nunca caminhava. Era uma ilha morta que a noite habitava, uma areia fina onde o mar não batia, e como o vento lá já não corria, nunca mais se ouviu as vozes deles na praia vazia.





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