domingo, 31 de janeiro de 2010

Poeminha Azul









Pelos arcos do coreto passa um pombo azul
o azul passa no pombo e o vôo é todo azul.

As linhas das pipas cortam a tarde azul
a euforia de correr pela pipa pratica um riso azul.

O velho olhando a praça tem olho de olhar o azul
todo olho numa praça parece ser azul.

Passa um gavião por onde o azul passa
na distância, fim da tarde, a montanha é azul.

A rua leva a vila, passa o pombo, o gavião passa
o balanço da praça balança azul.

Toda criança é azul.
Todo velho é azul.

Toda lembrança de criança deveria ser azul
todo velho deveria soltar pipas ao céu azul.

Toda rua deveria ter duas idas
e várias voltas e deveria ser azul
toda vila deveria ser tocada por um velho realejo azul.

Todo cinza deveria ser azul
todo dia deveria ser azul

Todo esquecimento deveria ser azul
e a lembrança uma nuance de pintar o azul.

Toda saudade de criança deveria ser azul
a de um velho vir numa aquarela
marrom-azul, roxo-azul
preto-azul, azul-azul.




Dedicado à Fá Lopes






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Contexto




Um texto
uma pausa
na porta
na tinta
no cesto

Íris do arco
da outra

Molhando...
À míngua
mão no céu
da boca

- gota a gota -

Um grão
deflora a ostra
pérola fica

Fim da gênese rota...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Noite Em Pleno Dia




A pequena cidade interiorana entregava-se à remissão da pasmaceira provocada pela alta temperatura. Corria o ano de 1889. As ruas calçadas de paralelepípedos tremulavam e ardiam. Apesar de o mês ser propício a alta pluviosidade, até aquele momento nenhuma gota de água se derramara sobre os canaviais e plantações de abacaxi. Poucas portas de lojas do comércio se mantinham abertas. Era uma hora em que os lavradores descansavam seus facões e enxadas e se sentavam à sombra para comerem suas refeições frias.

As donas de casa preparavam os filhos para irem ao grupo escolar, ou cuidavam da cozinha. Havia ainda um pequeno contingente de mulheres que se sentava à sombra dos beirais dos telhados que cobriam as casas simples, caiadas em tons claros, para aproveitar a brisa fresca vinda do mar, e para saber e informar sobre a vida social do lugarejo.

A velha senhora arrastou uma cadeira de carvalho da mesa nua e a postou diante da janela, no interior da casa. Da janela e da porta aberta via-se fotos antigas de paisagens, impressas em pratos de porcelana. Como a maioria das casas da cidade, não havia jardim, e o quintal guardava uma viçosa horta de legumes e ervas medicinais diversas. Ela é, sem contestações, uma das moradoras mais antigas do lugar. A história de sua família remonta à época da colonização. Ajudara a nascer muitas crianças, e por várias vezes, em épocas de colapso, fora voluntária no pequeno hospital que ficava do outro lado da cidade, próximo ao porto, muito contra a vontade do pai e depois, do marido. Este era um homem de temperamento arisco, seus silêncios e dissimulações indicavam que estava envolvido em alguma trapaça de jogo ou com outras mulheres. As crises passavam e eles seguiam suas vidas. Ela, na lida com os filhos, agora, com suas próprias famílias constituídas, moram e trabalham na Capital e ele, lhe trazendo presentes, após dias a fio fora de casa, até que a doença o prostrara, e seus dias se resumiam a esperar o dia seguinte, ao lado dela. Àquela hora em que já o asseara e alimentara, repousava os olhos de sua existência, olhando todo o mundo que na janela se lhe apresentava.

Dalí há instante, o bonde passaria sobre a antiga trilha de viajantes e colonos e partiria com seus bancos de madeira vazios. Ninguém ia e ninguém vinha.

O Chefe de Polícia se despediria da jovem esposa à porta da casa e ela sairia, com seu vestido estampado, levando nas mãos o almoço do pároco, recém chegado a paróquia do bairro, lá se demoraria por cerca de duas horas e voltaria com o rosto soturno e levemente ruborizado, não traria nada nas mãos. Cumprimentaria os conhecidos que encontrasse no caminho sem lhes olhar diretamente.

O Gerente da Empresa de Correios e Telégrafos, homem alto, de traços finos, ombros largos, se apresentava sempre impecavelmente vestido, atravessaria a rua e se encontraria com o filho do dono do Armazém Central, tomariam uma charrete de aluguel e seguiriam juntos pela estrada que vai dar no porto. Retornariam por volta das oito horas da noite, e a velha Balo, ama de leite do jovem, lhes serviria o jantar na cozinha, se recolheria e eles se despediriam longamente após mais uns tragos de conhaque.

A filha da dona da casa de prostituição; moça pálida, de faces estragadas pela acne, sairia a tratar das necessidades dos negócios da mãe. Antes de conhecer certo cigano, que por lá encantara muitas mulheres tanto quanto provocara desgosto a muitos homens, era uma criatura alegre, inventiva e ousada. Trazia sempre uma resposta pronta às ofensas e piadas que recebia dos pretensos puritanos de seu convívio. Então, ela contava dezessete anos. Agora, aos vinte e oito, tinha atitudes tão pálidas quanto sua aparência. Não se casara e nem pensava em fazê-lo, nenhum homem seria, nunca mais, merecedor de sua confiança e afeto, pois os conhecia mais profundamente do que as mães e esposas dos clientes frequentadores do comércio de sua mãe.

O maior criador de cavalos da região entraria na mercearia no fim da rua com dois peões e pediria para si o prato de sempre. Sua tranqüilidade confundia-se com frieza. Seus olhos argutos, penetrantes, são olhos de quem precisa prever intenções. Ao que se sabia sua mulher, acometida pela tuberculose, se tratava no sul do país com a assistência pessoal de sua única filha. Verdade, é que nada se sabia daquele homem de cinqüenta e oito anos, a não ser que tinha influência na política e que ia à casa de prostituição com a mesma frequência com que ia à igreja, à qual fazia generosas doações sempre que solicitado. Após o almoço, acendia um charuto, dirigia-se ao balcão e perguntava, polidamente, pelos familiares do proprietário, falavam de negócios e política. Os homens que o acompanhavam, como de costume, sairiam primeiro, olhariam a rua, colocariam seus chapéus de feltro gasto e montariam seus cavalos. O patrão seguiria entre eles de volta às suas terras.

Foi assim que naquele dia em que o céu sem nuvens ostentava uma lua cheia e branca e o sol principiava a abandonar seu cume, uma grande quantidade de pássaros, em bandos e desgarrados, sobrevoava a cidade oferecendo indícios de que muitas rotinas se desfariam para sempre.

Foi assim que no momento em que a lua começou a devorar lentamente o sol, as sombras mudaram do lugar de costume. As galinhas começaram a recolher suas ninhadas, e galos cantaram como se fosse chegada a aurora.

No breve período que durou o evento, nunca antes presenciado naquelas paragens, personagens anônimos e conhecidos daquela pacata cidade rural quedaram-se em pensamentos de fim de mundo. Seus desvios de comportamento para tão longe da conspiração ordeira e coletiva da convivência social lhes pesavam na consciência e na carne.

O grande criador de cavalos enterrou o rosto na crina do alazão lamentando ter que se afastar de suas posses num momento em que todos os planos de sua vida começavam a dar frutos. Lembrou-se dos assassinatos das famílias dos colonos, dos desaparecimentos de concorrentes políticos, de como algumas de suas mulheres eram bravas no momento do sexo. Soluçava e relatava aquelas lembranças em voz alta.

A moça pálida encostou-se à parede da casa vizinha à da velha senhora e orou por si, pelo filho abortado, por sua mãe e por sua amante, a oração mais verdadeira que um ser ateu podia orar.

O gerente da Empresa de Correios e Telégrafos, abraçado ao seu frágil amigo, beijava-lhe os lábios prometendo que encontraria com ele em algum lugar.

A jovem esposa do Chefe de Polícia largou os pratos amarrados em panos de cozinha e olhava tudo em volta com olhar perdido, chamando baixinho o nome do homem que lhe fizera fêmea e santa. Mas o pároco não ouvia, flagelava-se diante do altar-mor da igreja com fortes socos no peito, onde a batina se encontrava rasgada.

A velha senhora não se movera de sua cadeira, apenas pensava que morrer daquela forma não doeria mais do que nascer, ou viver da forma como tinha vivido.

O eclipse durou aproximadamente uma hora. Aos poucos a lua foi devolvendo as fatias tomadas ao sol. Enquanto o dia voltava a ser dia, aquelas pessoas jamais puderam voltar a ser, cada uma, o mesmo de antes.

E tudo porque o mundo não acabou.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Felicidade




Felicidade não é quando a melancolia esmaece,
nem é quando o desalento perde a persistência.

Não é, igualmente, a comemoração pela tristeza
desprezada a um momento em que não acontece.

É quando eu, sentada à entrada da tua alma,
e me dás a olhar lugares sabidos, antigos,

com a surpresa de trilhar caminhos antes
despercebidos, estou bem ali e mais nada.

Felicidade é quando a madrugada em seu rito
cantante, de primeiros pássaros de todo dia,

pousa na janela (meus olhos voam nos teus),
e apenas tu, eu, e a felicidade sabemos disso.


Dedicado à Cau Alexandre




sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma História de Amor




Não foi por um acaso que se encontraram. Ela sonhava um moço encantado, olhar seu rosto no riso dele espalhado, no seu corpo, as mãos dele lado a lado. Ele já estava desesperançado, certo de que o tempo de amar e ser amado havia, para sempre definhado no passado. De tanto vento que soprou, o último o levou numa vela crestada por incontáveis horas atrasadas ao encontro do destino esquecido. Foi a paixão dos sábios que eles viveram. O amor dos loucos que os consumiu. E toda estrela que no céu ardia tinha um quê de dó pelo que se destruiu. Era uma concha velha que ninguém ouvia. Era uma praia onde ninguém nadava. Havia sombra em que ninguém deitava, e sobre as falésias ninguém nunca caminhava. Era uma ilha morta que a noite habitava, uma areia fina onde o mar não batia, e como o vento lá já não corria, nunca mais se ouviu as vozes deles na praia vazia.





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