quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Essência










Acho que sempre esperei sentir o cheiro do melaço da cana na minha primeira respiração. Eu esperei ser aquecida em roupinhas de cambraia, bordadas à mão pelas avós, tias, madrinha e vizinhas. Um gosto irrecusável de florada de caju na boca. Esperei que meus primeiros brinquedos: meu chocalho, a caixinha de música... Fizessem o mesmo som da garganta da acauã... Do curió. Acho que sempre desejei que o primeiro lugar destinado a mim na casa, tivesse uma grande janela, de onde eu pudesse olhar o colorido de coroas-de-frade no quintal. E num domingo, quando todos se reunissem para comemorar as chuvas, vindas das preces a São José, eu passaria de mão em mão, e cada uma delas cuidaria de me empanturrar de rapadura batida, calda de doce de jaca, suco de umbu cajá, pamonha de milho fresco... E com mais um pouco de tempo, o interminável enxoval, feito para o meu nascimento, seria substituído pela carícia do algodão cru, fiado em teares nos fundos de casa e tingidos em tachos fumegantes de barro.

Mas, por força do êxodo, tudo ao que os meus sentidos pueris se ativeram era tão cinzento e frio. Tais informações não coincidiam com as que os meus genes já conheciam. A chuva que caía não era rezada, dela não se esperava abundância no roçado. Não, ela não faltava, como imposição de castigo imerecido. Era constante, acabrunhada e, excomungada. Refratando o asfalto feito rio, cujas margens brotavam concreto. Nenhum júbilo lhe abria as bocas nem o chão. Ela era tão sem graça, tão sem cor. Nenhum arco-íris a precedeu, só a fumaça.

Meu lugar na casa mostrava quadrados de grades, pelas quais eu via alvenaria, alvenaria, alvenaria, antenas e muitos fios, irrisórios pombos, pardais ocasionais. Uma selva de almas, nas mãos de nenhuma das quais a minha passou.

Tudo cheirava a Tietê. E os gostos, fuligem. E eu era tão nua. Tão farta da falta da identidade que meus genes conflitavam.

Quase fui triste, como se a ausência de explicação para mim não fizesse sentido. Temendo que quando, por ventura, um dia fizesse, eu perdesse todo o sentido.

Ilustre desconhecido, o destino é um poeta; fez do sal das salinas daqui, o mesmo tempero das minhas veias. Agora me basto. E do meu lugar, jamais fui tão plena. É ele quem me conhece os canaviais e coqueiros, o mar, o cerrado e a caatinga.

Voltar à minha terra acidental de nascimento nunca é como me visitar. É uma gozadora concessão do destino a que ela me visite. Ela, estrangeira que perdeu a bússola na pressa de partir e ir se partir, como quem não se quer mais.



"Somos quem somos porque ainda sabemos o que somos".

Carinhosamente dedicado a Marcelo Rocha.




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