domingo, 26 de dezembro de 2010

Rua do Bom Jesus



Ao se abrir a noite sobre os tetos ela vai só
buscar seus fantasmas em cantos esquecidos,
ocultos na luz dos postes, nas sombras e beiras
das sacadas, debaixo das copas, nos batentes.

Por endereço tem o domicílio dessas gentes
sem rosto, sem pais, filhos, esposas, maridos,
ninguém esperando nas janelas, nas soleiras
enquanto ela vai e vem trazendo o mesmo pó.

Tem em si duas medidas, uma funda de vazio,
marco nas palmas das mãos de acenar adeus.
Outra inexata, a medir a solidão de quem fica.

A rua separa em mim duas medidas que eu crio,
uma do lado de lá, para o tempo que se perdeu,
a outra bem aqui, onde me reparte e multiplica.




Fotografia da Internet: Rua do Bom Jesus - Recife - PE. 



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os Dias








Depois desta década estarão reservados outros dias aos nossos destinos. Enquanto esperam se aprontam e baterão nas portas trazendo as memórias, as somas do que perdemos e angariamos.

Nesse futuro nenhuma perda seja mais do que a necessária para que tenhamos certeza de o quanto foi importante ter sido parte da história de alguém ou de algo, mas que nenhum apreço banal e improfícuo nos torne amargos e descrentes de nós.

Que todos os ganhos não sejam apenas e tão somente transitórios, desses que desabam, que enferrujam, desvalorizam, desses onde as traças pastam, desses que o calendário revela aos poucos por mais que  se tente adiar  sua  naturalidade. Reconheçamos, o que é nosso verdadeiramente é a capacidade de transformar o que somos por dentro, porque o tempo é uma linha ininterrupta, não muda, e, nossa vantagem em relação a ele é que podemos modificá-lo em nós.

Demos aos nossos dias as melhores condições para as memórias de realizações íntimas, de paciência quando tudo parecer revolto, de felicidade quando forem poucos os motivos, de perseverança quando obstáculos se erguerem, de inspiração na resolução de problemas, de sabedoria na expressão da palavra, de atitude quando a palavra não for suficiente, de ternura pela natureza do amor que nos é intrínseco, de abnegação a uma causa  justa e inerente a toda a vida que nos cerca, de bom aprendizado, ainda que por meios dolorosos pois, inexoravelmente, os dias devolverão o que lhes dermos quando baterem na nossa porta amanhã e depois e mais tarde. Serão, certamente, mais bem acolhidos se nossas memórias forem as do que conseguimos ascender todo dia, do que simplesmente vazias.

Tratemos os dias com o mesmo cuidado com o qual eles vêm nos acordar. Neles se fazem a vida e a ausência dela. E nelas são eles que nos contam ao passarem.
 



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