domingo, 31 de janeiro de 2010

Poeminha Azul









Pelos arcos do coreto passa um pombo azul
o azul passa no pombo e o voo é todo azul.

As linhas das pipas cortam a tarde azul
a euforia de correr pela pipa ri um riso azul.

O velho olhando a praça tem os olhos de olhar o azul
todo olho numa praça parece ser azul.

Passa um gavião por onde o azul passa
na distância, fim da tarde, a montanha é só azul.

A rua leva a vila, passa o pombo, o gavião passa
o balanço da praça balança azul.

Toda criança é azul.
Todo velho é azul.

Toda lembrança de criança deveria ser azul
todo velho deveria soltar pipas ao céu azul.

Toda rua deveria ter duas idas
e várias voltas e deveria ser azul
toda vila deveria ser tocada por um velho realejo azul.

Todo cinza deveria ser azul
todo dia deveria ser azul

Todo esquecimento deveria ser azul
e a lembrança uma nuance de pintar o azul.

Toda saudade de criança deveria ser azul
a de um velho vir numa aquarela
marrom-azul, roxo-azul
preto-azul, azul-azul...




Dedicado à Fá Lopes






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Contexto




Um texto
uma pausa
na porta
na tinta
no cesto

Íris do arco
da outra

Molhando...
À míngua
mão no céu
da boca

- gota a gota -

Um grão
deflora a ostra
pérola fica

Fim da gênese rota...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Felicidade




Felicidade não é quando a melancolia esmaece
nem quando o desalento perde a persistência.

Não é, igualmente, a comemoração pela tristeza
desprezada a um momento em que não acontece.

É quando eu, sentada à entrada da tua alma,
me dás a olhar lugares sabidos, antigos
com a surpresa de trilhar caminhos antes
despercebidos, estou bem ali e mais nada.

Felicidade é quando a madrugada em seu rito
cantante de primeiros pássaros de todo dia
pousa na janela (meus olhos voam nos teus)
e apenas tu, eu e a felicidade sabemos disso.


Dedicado à Cau Alexandre




sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma História de Amor




Não foi por um acaso que se encontraram. Ela sonhava um moço encantado, olhar seu rosto no riso dele espalhado, no seu corpo, as mãos dele lado a lado. Ele já estava desesperançado, certo de que o tempo de amar e ser amado havia, para sempre definhado no passado. De tanto vento que soprou, o último o levou numa vela crestada por incontáveis horas atrasadas ao encontro do destino esquecido. Foi a paixão dos sábios que eles viveram. O amor dos loucos que os consumiu. E toda estrela que no céu ardia tinha um quê de dó pelo que se destruiu. Era uma concha velha que ninguém ouvia. Era uma praia onde ninguém nadava. Havia sombra em que ninguém deitava, e sobre as falésias ninguém nunca caminhava. Era uma ilha morta que a noite habitava, uma areia fina onde o mar não batia, e como o vento lá já não corria, nunca mais se ouviu as vozes deles na praia vazia.





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