O criador de cavalos almoçava sempre na mesma venda, no mesmo lugar da mesa, de costas pra porta. Ninguém sabia a idade dele. Uns diziam quarenta, outros sessenta. Tinha a pele curtida de quem vive no lombo do cavalo e o olho claro que não piscava.
Chamavam de Coronel, mas ele nunca foi nada.
O calor era branco, parado, de litoral. De suor que não seca. Ele comia de chapéu na mesa, faca na mão direita. Dois vaqueiros comiam em pé, atrás. De chapéu de feltro gasto, sem falar.
A mulher dele tinha ido pro Sul com a filha.
Tuberculose.
Mandava carta, ele não respondia.
Mandava dinheiro, isso sim.
Tinha mandado fazer uma casa de tijolo na fazenda que a mulher nunca ia morar.
Ele cresceu pouco.
O pai tinha uma faixa de terra. Ele tomou três. Não comprou. Cercou. Quando o colono reclamava, ele mandava os vaqueiros de noite. Depois dizia que o colono foi embora.
Foi assim com o velho Chico do riacho, com os dois irmãos da Várzea.
Um amanheceu boiando no rio.
O outro nunca apareceu.
O povo aprendeu a não reclamar da cerca.
Gostava de mulher brava. Dizia que mulher que não morde não presta. Ia na missa das sete todo domingo, com o rosário na mão, e de tarde ia ao bordel da beira do porto escolher.
Pagava bem. Batia também. As meninas tinham medo dele, mas gostavam do dinheiro.
Naquele dia ele pediu o prato de sempre. Comeu metade.
Os pássaros vieram primeiro. Muitos, baixos, fazendo sombra nas pedras quentes.
Depois a luz ficou amarela, suja, como óleo velho. A lua já estava no céu desde cedo, branca, apagada.
Ninguém notou quando ela encostou no sol.
O dia escureceu. Ficou azul. Um azul de pano sujo por cima de tudo.
O mar ficou preto, sem brilhar. As sombras saíram de baixo dos pés das pessoas.
Na venda, todo mundo ficou quieto. Olhando a noite em pleno dia. Parecia fim do mundo.
O criador levantou. Saiu na rua de pedra e agarrou o pescoço do alazão. E começou a falar alto. Pra rua toda ouvir. Como quem confessa.
Falou do velho Chico. Que mandou botar fogo na cabana com ele dentro porque não saiu da beira do riacho.
Falou dos irmãos da Várzea. Que mandou afogar um e enterrar o outro na cova da cerca nova.
Falou da menina de quatorze anos da fazenda vizinha, que puxou pelo cabelo pro mato porque riu dele na quermesse.
Falou da mulher do colono que fez ficar de joelhos enquanto os capangas olhavam.
Chorava.
Não de arrependimento. Chorava porque achou que ia morrer ali e Deus ia cobrar. Soluçava na crina do cavalo, fedendo a suor e conhaque.
"Eu fiz, eu fiz", ele gritava. "Foi tudo eu."
Os vaqueiros olhavam para o chão. Um deles, o mais velho, tinha ajudado a cavar.
Durou quase uma hora aquele pano azul.
Depois a lua foi devolvendo o sol pedacinho por pedacinho, como quem devolve troco contado, moeda por moeda.
O dia voltou. Branco.
O criador largou o alazão. Entrou na venda, pegou o chapéu na mesa, limpou a cara e a ranheira com a manga da camisa.
Montou.
Vamos - disse aos capangas.
Voltaram os três no trote, ele no meio, pra fazenda.
Na venda, ninguém falou nada.
O vendeiro recolheu os pratos.
Porque o mundo não acabou.










