Você não viu nada
Abri uma fresta
a noite desceu
a noite desceu
abri meia porta
alvoreceu
alvoreceu
escancarei-a e era dia
Você despejou na sala
como quem não queria
beija-flor, primavera, hibisco
ao redor
na relva plantou o pão
na relva plantou o pão
sem ao menos semear o trigo
Tudo feito a céu aberto
Mariposas acordadas
voando graves
bem perto
bem perto
Da minha casa fez cair o
teto
na cozinha fez chá de rosa
fragrante o suspiro
entrecortando nossa prosa
Ai, meu chão partido!
Esse alarido
crepitando como lenha
que eu desejo mais acesa
quanto mais acesa a tenha
O surgimento do mundo
se alastrou em um segundo
povoando os meus ermos
Foi talvez
por isso mesmo
pela porta desvairada
por isso mesmo
pela porta desvairada
exagerada a profusão
você veio
e não viu nada
não.
e não viu nada
não.
