sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Alumbramento





Você não viu nada

Abri uma fresta
a noite desceu
abri meia porta
alvoreceu
escancarei-a e era dia

Você despejou na sala
como quem não queria
beija-flor, primavera, hibisco

ao redor
na relva plantou o pão
sem ao menos semear o trigo

Tudo feito a céu aberto

Mariposas acordadas
voando graves
bem perto

Da minha casa fez cair o teto
na cozinha fez chá de rosa
fragrante o suspiro
entrecortando nossa prosa

Ai, meu chão partido!

Esse alarido
crepitando como lenha
que eu desejo mais acesa
quanto mais acesa a tenha

O surgimento do mundo
se alastrou em um segundo
povoando os meus ermos

Foi talvez
por isso mesmo
pela porta desvairada
exagerada a profusão
  você veio
e não viu nada
não.




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