A leste do meu corpo
ficam cicatrizes que não mostro
- mapa-múndi de faca cega -
cada uma com seu fuso horário de silêncio.
Ao norte, a cidade que deixei
com suas pontes e seus homens
que ainda acenam
do outro lado do rio
sem saber que o rio secou.
No centro, um terreno baldio
onde cresce mato
e às vezes, sem querer,
cresce um verso.
A oeste, o mar.
Sempre ele, o drama, a espuma.
"Cuidado com o mar, menina!"
Que primeiro ele lambe
e depois engole.
Eu fui.
Engoliu-me e me cuspiu:
molhada, viva e com sal nos dentes.
Ao sul, o país das coisas finitas:
cartas não respondidas,
um guarda-chuva quebrado
e a chave de uma casa
que já não sei onde fica.
No centro do centro,
bem no meio do terreno baldio
tem uma árvore que não devia estar ali.
Pequena, torta, insistente.
Às vezes esqueço de regar
e ela continua verde.
Às vezes durmo e sonho que ela da fruto.
Isso deve ser o amor,
ou a poesia,
ou as duas coisas:
o que cresce onde não devia
e não pede licença para ficar.
