sábado, 28 de julho de 2012

Desencontro











Chegou pontualmente
vinte e quatro horas
antes de um dia marcado

Eu o chamei
de o que podia ter sido
noite que o sol
esgarce a olhos abertos

dois átimos para a madrugada

Por tão preciso
no passo que veio
chamei de amor perfeito
o travesseiro amassado
justo e posto no lado da cama

De comunhão
chamei as maçãs
que não se morde às pressas

De costume
rotinas contadas passando
como novas conhecidas

No entanto
para chamar de vela
alguém tinha querido
minha alma navegando
a meio mastro

Foi sem jeito a demora
desde então me chamo
do que a saudade empresta.








domingo, 24 de junho de 2012

Amanhãs









Lembrava-me de mim
pelo que deixava entre caminhos
partes que se me desprenderam

Pelo pouco que carregava
de tão raro, só tinha valia na falta
toda vez que chegavam amanhãs

Lembrava-me assim
pelas cicatrizes que me cortei
no lado de fora de onde avistava chegar

Queria os anjos
das modinhas negligentes de dormir
eles também se enganavam.







sábado, 9 de junho de 2012

Menor Que Tudo










Há momentos
                                               que caem num dia
                                                                                  como um segredo veloz
começa no instante
                                               e nele vira epitáfio

                                  Distâncias longas
                                                                             por onde vou aprisionada
                                                                                                            tão dentro das horas
                            como se a minha alegria
                                                                                       passasse a existir menor que tudo

Por acaso
                                       quatro faces
de um dado
                                                reunidas apartadas
                                                                                      sem ser maldade
ignorar com qual das mãos
                                           Deus apostou

                       Feito me reservasse
                                                                   ainda
a presunção
                                                            de um dia que não agonia

liberdade é teima da renúncia.







sábado, 12 de maio de 2012

Laira








Se a flama de mil pores-do-sol
em ventres vaga-lumes
não piscasse antes do verbo terra
terraria tempos de carvão
flamboyants em motim num pólen
sem megatons de primavera.

Pele fresca de rios na boca do vento
seria desde então silêncio
nem caos seria nome-princípio de azul.

Aguardei antes do escuro do mundo
nomeares teu nome o mesmo de mim.








segunda-feira, 23 de abril de 2012

Retórica







Do que componho

A textura e não o rascunho

A palavra que não há

eu queria falar

Assim refaço todas as partes

Os riscos que não são arte

Se tanto existe na retórica que se omite

Por qual motivo haverias de lê-la triste?








segunda-feira, 19 de março de 2012

Paredes










Janela dura
de tanta argamassa
nos lados da rua







domingo, 4 de março de 2012

Em Caminho











De idéia e pó
ao contínuo perder-se
Aqui talvez não








quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Versos





Eu sou o que
não desejo dar-te

o que de mim entregaria
no teu natural espaço

Sou o que te dou

 recíprocas inteiras
todas
numa só vida

e ambas.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Quintal










Com quanta graça
o rosa liquida o verde
das mangas em Dezembro
e do tempo não se vê os olhos
ainda que siga sangrando.







sábado, 26 de novembro de 2011

Revelar







Pois
que a transformação
revela-se lilás-infinitivo
tal verbo que se desse
às coisas de acontecer o mundo

Deixei à porta um espelho
para quando eu voltasse
exausta dos meus riscos
meus se nãos e porquês.

Conheço o custo desta intimidade
ao corpo e alma expostos.

Em qualquer momento
a rua mudou-se da casa
e quem me olhava
do espelho à porta
me gestava ainda.






sábado, 15 de outubro de 2011

Voz Para Uma Interrogação









Sempre ao tentar penetrá-lo
seu silêncio desaba no meu

eu não sei se há mentira
na voz que emudece, então

Os muros nos quais
ainda assim eu mergulho
são como uma noite intensa
sem transição

De sua distância à minha
perco-me inúmeras perdas
e querer entender isto
é como esperar um cometa
que me caia nas mãos

Não sei porque entardeço
em um ar que me abafa

Se dependência e obrigação
ficam  à verossimilhança de amor
o silêncio é tangível
e nós, resposta sem questão.





domingo, 28 de agosto de 2011

Cansaço










Dormi na fronteira
no chão.
A planície está suja
no sonho está suja.
Na realidade também está suja
eu não a lavei no sonho
e o cansaço me desperta
extenso.

Como viagem de agulha
ponteando o vidro;
um dos dois se parte

Não toquem no meu cansaço
pois ele é limpo
rebento novo a nascer
durante as noites
enquanto durmo.




Fotografia: H. Ralf Lundgren






sábado, 23 de julho de 2011

Aves Migratórias









Em todas as evasões dos olhos
alegorias de aves migratórias
invenções dos nossos espíritos
por esquinas de dunas e esperas.

Se um sopro marinho respirasse
no núcleo da pele e bagunçasse
o corpo mais ao sul, redemoinho
girando a carne atlântica, suave
nossas asas nos aconteceriam após
o pouso inquietamente puro.

Um brilho coruscante amorteceria
com força nosso imenso desafio,
tal como envelhecem os mistérios.

Tempo outro, de primeiro enlevo
talvez, pulsasse nossos corações
e fossemos alforriados desse chão
como as aves, necessariamente livres
voado seus ventos e nortes.

Mas, o céu de abraços e renúncias
entrega às asas movimentos de partir.



Fotografia: Jeanne Chaves





sexta-feira, 3 de junho de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Não Dizer Das Coisas







Sei que pensamentos
ao léu da boca
atentam contra o poema

-entre dentes-

um amor tão em exagero
fazendo as horas que a luz
aquieta-se nos cílios das coisas
desvenda-lhes o nome
qualquer que se pode nomear

-metaforizar-

tão tranquilo no penhasco
fosse a queda
abraço intersticial
da matéria do vento
chegando lá não é o fundo
gaveta de guardar cartas de amores

-póstumos-

pétalas esmaecidas de depois do jantar
algo que pareça em desalinho
lagartas tecendo equador em pomares
ou pirilampos brilhando ao meio-dia

-e cante-

que se no desejo
(auge do discernimento da pele)
tem mais gosto que o agridoce da maçã
tem mais eloquência a mudez
(Ser)
das coisas de um poema

É cena sem ter sido
nunca luz

-e diz-





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