sexta-feira, 2 de novembro de 2012
A Aerodinâmica das Coisas Que Se Diz
Dizer dia e caber no plano
Das horas é rotina.
Dizer rotina e caber no plano
Do tédio é óbito.
Dizer tarde e caber no plano
Dos dias é nunca.
Dizer nunca e caber no plano
Da espera, desperdício.
Dizer escolha e caber no plano
Do único é lógico.
Dizer único e caber no plano
Do exclusivo, modesto.
Dizer meu e caber no plano
Do que pertence é posse.
Dizer meu e caber no plano
Do que faz parte, partilha.
Dizer amor e caber no plano
De tudo é transgressão.
Dizer amor e caber no plano
Do exato, exagero.
Dizer porta e caber no plano
De fora é mundo.
Dizer mundo e caber no plano
De fora, a sós.
Imagem: http://www.luvluvluv.tumblr.com/
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Das Dô da República
Doa a quem doa
o dolo
Das Dô
divide-se o bolo
conta-se favas
segura a saia
no ardil não caias
corre capenga
despista o capanga
Das Dô!
Não rales joelho
e o reles do esteio
quando vês
num revés
já passou.
Imagem de Portal Guaratiba
http://www.portalguaratiba.com.br
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Macho e Femen
Um machista é aquele que não se incomoda em ver peito quando a proposta é sexual e ele tenha em mente que os mesmos lhe pertençam, mas assim, em público, muito público, peito choca até durante a amamentação. Amamentar não deveria ser ato tão doce depois que se adolesce. Contudo, as mulheres que amamentam em público deveriam estar protegidas desses mal estares e falsos pudores alheios. Afinal, peito é um órgão sexual ou, primordialmente, de nutrição? Quando o homem (sexo) conseguir definir isto movimentos como o Femen não serão mais necessários, porque as mulheres já o sabem.
Quanto a autodenominação do grupo feminista, “As Vadias”, não é a si que denigrem, mas a condição psicossocial, independentemente de fama e riqueza, ou do degredo aos quais as mulheres são reduzidas ideologicamente por ser a monogamia na espécie humana apenas atingível através de esforço civilizatório e não sem algum altruísmo. Contudo, se a sociedade fosse realmente esforçada Sigmund Freud não teria necessitado explicar nada, sobretudo, ele mesmo.
Diferimos muito dos muçulmanos, por exemplo, nas concepções acerca de sexo comportamental, mas não nas finalidades. Usualmente, nas terras do culto ao Profeta, burcas e véus são impostos para proteger as mulheres dos desejos masculinos, e através delas os machos da espécie se protegem uns dos outros. A mutilação genital de mulheres, tradição cultural hedionda, sequer está prevista no Corão, mas as mutilando, as sociedades muçulmanas purgam seus próprios pecados carnais, como a cortar o mal pela raiz (no projeto de árvore das outras). Ocidentalmente, diz o mito, Eva mordeu o fruto proibido e o ofereceu para Adão que, convenhamos, não declinou de degustar da mesma tentação, e toda a humanidade adâmica continua ocultando seus pecados capitais na transferência simbólica da culpa às fêmeas, no igual sentido de preservar os machos da espécie deles mesmos. Impressiona muito que a humanidade ainda se sinta alarmada em seus desejos sexuais, não obstante toda a racionalidade científica e divinal, por... Peitos.
Todavia, haverá mérito nisto tudo. A tecnologia afirma que em 2029 um mega computador pensará como um ser humano. A profecia de George Orwell em sua obra 1984 sobre o pensamento único e uma única nação totalitária corre risco de não se cumprir pelo simples fato de não ter para quem se cumprir. Na falta de pensamentos próprios, que fujam a regra do consumo e do sexo, do âmbito circular, por conseguinte redundante, das redes sociais, parâmetros atuais, o ser humano poderá recorrer à máquina e seus infinitos bytes de informações confrontáveis que produzirão outra quantidade infinita de informações, ao mesmo tempo em que a massa cerebral, muito provavelmente, na atrofia do desuso, volte às dimensões da de um chimpanzé como efeito da causa humana.
Ufa! Mas que alívio essa qualidade estritamente homocêntrica de negar sentimentos quando são próprios, e, se consequentes, aplacados em beneméritas indulgências teístas e clínico-analistas da psiquê: a inveja, a preguiça, a soberba, a luxúria, a ira, a gula, e a avareza, sentimentos não simuláveis, dado as combinações infinitas de gatilhos que os deflagram. E não sendo seres hormonais, os andróides derivados dos mega computadores dispensarão as compreensões anatômicas sexuais ao se multiplicarem, pois tal dimorfismo será obsoleto, após trinta e oito bilhões de anos, e mais alguns evoluídos (desdobrados).
As contaminações neuro-hormonais dos andróides seriam improváveis. Eles não morrerão pelas próprias mãos ao se esvaziarem das paixões que impulsionam os seres não-mais-pensantes remanescentes, nem se afastarão caridosamente do grupo ao modo espiritual evoluído das baleias, também mamíferos, que o fazem instintivamente, para não se converterem em fardo aos demais do grupo, do contrário, haveria impedimento da progressão pela sobrevivência. Em contrapartida, não haverá pressões emocionais pelo cumprimento do Decálogo de Moisés. Nenhum andróide será morto pelas paixões. Não haverá deserto de alma para o qual a honra seja qualidade imperiosa, e ela deixará de existir. Assim como os ídolos e mitos de personificação de massas. A mentira será substituída pela lógica, substrato da verdade. A raça cibernético-humana terá atingido o auge. E tão perfeita, não temerá a Deus nem a si, então Ele poderá dizer, um dia a mais, um dia a menos:
- Crescei e multiplicai em silício e sem receio. No amor da assexualidade ancestral que vos dei.
Possivelmente, Deus chamará de Prometeu do Bosón de Higgs o último ancestral comum a Ele. A Terra poderá ser infinita enquanto segue às chamas do Sol e à plenitude do Caos, sem peitos que a importune, após a reverberação das trombetas apocalípticas.
Dedicado ao meu mais querido e instigante machista distraído.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Mendigos
Não era um morto, mas só.
Respeitem a solidão desse corpo
que precisou ser conquistada
dia a dia nas caras fechadas
no não que se dá a quem é ninguém
na mentira contumaz pro tostão
pra pedra, aguardente e pão.
Respeitem o que virou corpo
que para ser gente adota um cão.
Não era um corpo, mas só.
Respeitem a solidão desse morto
que precisou ser conquistada
dia a dia na postura empertigada
no sim que se dá a quem é alguém
na reverência contumaz pro milhão
pros outros, à outra, pro pão.
Respeitem o que nasce morto
que para ser gente compra um cão.
Respeitem a solidão desse corpo
que precisou ser conquistada
dia a dia nas caras fechadas
no não que se dá a quem é ninguém
na mentira contumaz pro tostão
pra pedra, aguardente e pão.
Respeitem o que virou corpo
que para ser gente adota um cão.
Não era um corpo, mas só.
Respeitem a solidão desse morto
que precisou ser conquistada
dia a dia na postura empertigada
no sim que se dá a quem é alguém
na reverência contumaz pro milhão
pros outros, à outra, pro pão.
Respeitem o que nasce morto
que para ser gente compra um cão.
domingo, 26 de agosto de 2012
Mimetismo
Essas tintas de artifício
colorindo ao desbotar
Essas certezas subjetivas
serão sempre urgentes
porque pintam
com os oito sentidos
e dói-me por vezes
a cegueira que eles tem
então me é suficiente saber
que a via do futuro
se colore em exagero
por ser lenta de menos.
sábado, 25 de agosto de 2012
Colheita
Pousam os corvos
Milharal brota filhos
Falhos e milhos
Corvo se poda
Na raiz do Planalto
Volta - não voto -
sábado, 28 de julho de 2012
Desencontro
Chegou pontualmente
vinte e quatro horas
antes de um dia marcado
Eu o chamei
de o que podia ter sido
noite que o sol
esgarce a olhos abertos
dois átimos para a madrugada
Por tão preciso
no passo que veio
chamei de amor perfeito
o travesseiro amassado
justo e posto no lado da cama
De comunhão
chamei as maçãs
que não se morde às pressas
De costume
rotinas contadas passando
como novas conhecidas
No entanto
para chamar de vela
alguém tinha querido
minha alma navegando
a meio mastro
Foi sem jeito a demora
desde então me chamo
do que a saudade empresta.
domingo, 24 de junho de 2012
Amanhãs
Lembrava-me de mim
pelo que deixava entre caminhos
partes que se me desprenderam
Pelo pouco que carregava
de tão raro, só tinha valia na falta
toda vez que chegavam amanhãs
Lembrava-me assim
pelas cicatrizes que me cortei
no lado de fora de onde avistava chegar
Queria os anjos
das modinhas negligentes de dormir
eles também se enganavam.
sábado, 9 de junho de 2012
Menor Que Tudo
Há momentos
que caem num dia
como um segredo veloz
começa no instante
começa no instante
e nele vira epitáfio
Distâncias longas
por onde vou aprisionada
tão dentro das horas
como se a minha alegria
passasse a existir menor que tudo
Por acaso
quatro faces
de um dado
reunidas apartadas
sem ser maldade
ignorar com qual das mãos
Deus apostou
Feito me reservasse
ainda
a presunção
de um dia que não agonia
liberdade é teima da renúncia.
sábado, 12 de maio de 2012
Laira
Se a flama de mil pores-do-sol
em ventres vaga-lumes
não piscasse antes do verbo terra
terraria tempos de carvão
flamboyants em motim num pólen
sem megatons de primavera.
Pele fresca de rios na boca do vento
seria desde então silêncio
nem caos seria nome-princípio de azul.
Aguardei antes do escuro do mundo
nomeares teu nome o mesmo de mim.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Retórica
Do que componho
A textura e não o rascunho
A palavra que não há
eu queria falar
Assim refaço todas as partes
Os riscos que não são arte
Se tanto existe na retórica que se omite
Por qual motivo haverias de lê-la triste?
segunda-feira, 19 de março de 2012
domingo, 4 de março de 2012
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Versos
Eu sou o que
não desejo dar-te
não desejo dar-te
o que de mim entregaria
no teu natural espaço
Sou o que te dou
Sou o que te dou
recíprocas inteiras
todas
numa só vida
e ambas.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Quintal
o rosa liquida o verde
das mangas em Dezembro
e do tempo não se vê os olhos
ainda que siga sangrando.
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