sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ao Pé da Nossa Janela





O que você vê ao olhar pela janela? A rua? As pessoas que passam? As outras janelas? O mar? O verde de um parque?
É olhando pela janela que muitas vezes descobrimos novas possibilidades, novas formas de ver o que se passa lá fora.
É na janela da alma que também olhamos pra dentro de nós, para o que somos, temos e sentimos.
É também numa outra janela que temos o mundo na ponta dos dedos e ao alcance da vista. É na telinha de um computador que descobrimos que o outro lado do mundo é logo ali!
E assim vivemos, de janela em janela.
E com essas visões, nós (Cláudia e Jeanne) descobrimos uma nova possibilidade. Descobrimos que poderíamos deixar marcada, guardada, impressa de alguma forma, nossas visões de mundo. E criamos nossos “blogs”, janelas nossas para expressar o mundo interior e exterior a nós.
E por conta de mais uma janelinha, um dia nossos olhares se cruzaram, e percebemos o surgimento de uma parceria, de olhares, quem sabe. Uma brincadeira de olhar a janela da alma humana que foi ficando seria ao ponto de merecer o registro em livro.
E assim nasceu o “Ao Pé Da Nossa Janela”: um projeto que tem como elemento básico a expressão do sentimento que o texto desperta, através de uma viagem narrada e musicada, a partir do poema e de volta a ele. Poesia e melodia vão se incorporar em lugares muito próprios da sensibilidade e da percepção do ouvinte, numa transcendência para além dos vocábulos e das notas musicais. A intenção sempre foi de inovar e, construir um livro para ler, ouvir, ver e sentir. No projeto original temos uma compilação de nossos poemas com músicas (em um áudio book) que fogem ao mero papel de serem equivalentes em notas musicais para os vocábulos dos textos e buscam despertar sentimentos de alegria, melancolia, tristeza, nostalgia e todo conteúdo emocional dos poemas, numa tradução através dos acordes e harmonia das músicas compostas exclusivamente para cada um dos textos.
E agora, porque até os sonhos são construídos em partes, apresentamos uma parte do projeto, o livro com os nossos poemas.
E é com grata satisfação que convidamos a todos os amigos, leitores, blogueiros e afins para o lançamento do “Ao Pé da Nossa Janela”. Uma co-produção Recife-Fortaleza que é uma parte do nosso sonho.
O lançamento será no dia 29 de novembro no Centro de Convenções de Pernambuco (Recife) às 18h.
Esperamos que apreciem nosso sonho e nosso livro. Os que não puderem estar lá conosco para adquirir um exemplar, procurem nas livrarias da sua cidade e aos que não acharem nas livrarias, ligue para todas elas fazendo pedidos (risos) ou nos envie um e-mail (conversemos@aopedanossajanela.com) e aguardem novas surpresas e mais novidades no site “Ao Pé da Nossa Janela”.


Fotografia: Daniel Bezerra






sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Amor...









É ainda essa lentidão de espera
tentando fazer em um só sábado
os bem-me-queres da primavera
dele mesmo, um ato consumado.

E eu pensei distinguir nos amores
de tanto guardados tido perdidos
a errática além de ou aonde fores
um luto azul para ser usado rindo.

Mas o que é essa tal essencialidade
senão a calma com que a ferimos?
Raspando a alma por uma verdade.

Imenso ou precário, todo ou em parte
nem por pretensão a ele despedimos
Dias, é cansaço, mas em outros, arte.



Tela de Cecilia Braun






quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Contradição







Isso de não-razão se esclarece nesse
arrepio da gente e, faz do imenso absurdo,
palavra sem boca, volúpia sem pernas.
A verdade categórica de tudo, sem uso.







terça-feira, 7 de setembro de 2010

De Sal e Luz









Repete devagarzinho
no ritmo das ondas
movimentos de sal e areia
ainda tenho nas mãos o estalido da luz
cavada entre as nuvens
esquecida da noite.







sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Estado Bruto



Finalmente!


Pois é... Tenho ficado distante "do Brisa" no afã de concluir este projeto que se iniciou há pouco mais de cinco meses, até que ele se materializou. Com fotos de Daniel Bezerra, editoração e impressão da Editora Babecco, em novembro, ESTADO BRUTO estará nas livrarias. Sinto enorme prazer em dividir este momento com os leitores assíduos, amigos e visitantes ocasionais, pois este evento marca o início da aventura desta bióloga aqui pelos caminhos da prosa literária, em uma base mais realista e sociológica.





sábado, 31 de julho de 2010

Sobre o Tempo





Se eu conhecesse o que está no minuto, apenas
e sendo cada um o último tivesse todos os poemas
que eu não tive tempo de escrever.

Quem me dera litros de mágoas gaseificadas
sabor groselha, caramelo, chocolate, goiabada.
O que mais eu haveria de querer?

E se eu aprontasse o mais perfeito colossal deslize?
E sendo o derradeiro, celebrasse todas as tolices
que eu deixei de cometer?

Mas, quem me dera aquele largo riso infante,
ocupando a boca de felicidade tão grande,
que ela ficasse sem meios de dizer.

E se me acometesse uma sanidade tardia?
Singular? Seria a melhor e a que eu mais queria:
a mais alucinante de viver.

Quem me dera os pés calçados de vento
e na rapidez de um claro pensamento,
o que passou e o que ainda vai acontecer.

E se para aqueles sonhos esquecidos
houvesse uma cura? Um comprimido?
- Três vezes ao dia para não envelhecer! -

Quem me dera dores bem pequenininhas,
eu as guardaria com botões e poesias,
e as contaria antes de adormecer.

Quem dera me aguardasse um abraço no frio,
quando eu for bem velha, e os meus filhos
tenham desistido de crescer.







segunda-feira, 12 de julho de 2010

Úmida



Cuida
Que entre as coxas
vibra navalha
cio
pele
e eu me bordo de chuva.







terça-feira, 22 de junho de 2010

Aguaceiro








Depois que essa
lágrima lavrar a dor;
os crisântemos.





sexta-feira, 11 de junho de 2010

Prioridades









Primeiro: um dia inteiro a fazer,
que do cimento, dos segredos;
andaimes de teias indulgentes,
trescale a respiração dos dedos.

- Amiúde, um vôo fora do vestido -
Encostar-me às pedras comovidas;
astros clandestinos destronados,
ateados dos mil tons de violeta.

Segundo: tão somente a tua índole,
de água e infinito, de antes do sol,
dos sucos do trigo, me dar a beber.

Terceiro: buscar o verso que se bole
no vento - crescente sopro, dó ao dó -
Depois, eu precisarei envelhecer.



 

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Soneto Nordestino








Tenho aqui dentro comigo, moço
fome que é só minha, de mais ninguém
Ela é algo maior que um talho, que nem
toda enxada arreganha no seu aço.

Algo menor que a dor, feito caroço
solto no ronco da barriga que ela tem.
E se mexe, procissão. Chuva que não vem.
Se cai da minh'alma um estilhaço

do chão a me esperar a carne, passa não.
Nenhuma esmola me paga. Nada, moço!
Desabafo sertanejo é só lamentação.

Duro o céu da terra de urubu e arribação
bebeu a sede do capim, do gado e do poço
e essa água na cara é que fere minha mão.



quarta-feira, 14 de abril de 2010

Só-Mente









Alguém chamou por Ninguém
nas ruas, com insistência.
Amasiaram-se logo cedo,
nasceram Solidão e Ausência.
Alguém se consumiu de amor.
Ninguém roçou a boca de um poema.
Alguém chorou com calma.
Ninguém aparou uma lágrima.
Alguém se foi, virou a esquina,
Ninguém fechou as cortinas.
Solidão deitou-se à calçada,
anoiteceu, só Ausência a abraçava.









domingo, 14 de março de 2010

Profana








Retesada sob o manto dos santos
há uma terra de estuque e altas horas
aonde vai a alma montada em raios
noite a dentro, alvorada à fora

Horas em que nossos sexos se dão
Que se dão as bocas aos vermelhos
Dão-se gemidos lambidos às paredes
e os nossos dedos, a orgânicos lagos que
prontamente, nas horas úmidas, se dão

Que estremeça o amanhecimento
amontoado ao pé do hemisfério
Meu ofício é tua alma, noite e dia
porque mesmo antes dos mistérios
uma profecia contava que virias

E ainda que de temor ou fúria
mais que tesão ou desdém
eu te morda a língua, anjo
ou te beije a língua, homem
sem amor, eu nunca, nada seria

Assim seja para o sempre todo
Amém!




Foto: "O Salto", de A. Brito (Palavras, Todas as Palavras - Wordpress.com)





segunda-feira, 1 de março de 2010

Ciclos








Conto em vários dias
o que se fecha em vários ciclos.

Eu que era uma pequena gota
escoada para além do rio
como só um rio faria,

a princípio, não me soube,
não me vi esvaindo
por paredes abissais,

até que o vácuo pendurado
nos fios elétricos
me desvendou os pardais.

Era uma vista assim, acanhada,
uma centelha acesa azul
na antimatéria encarnada.

Noite, o corpo repousava.
Dia, andava sob lajes
que mais tarde se fechavam.

Eu caminhava muito rápido,
o tempo variava,
mais trôpego, mais lépido,
mais outro, como tudo estava.

A partir de então, já me sabia:
o que me fecha em vários ciclos,
subsiste em muitos dias.






quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Exílio







Há só um lugar no mundo
no qual eu me refugio
e tudo faz mais sentido.
Às vezes eu me extravio.

Velas, às vezes, me levam
a sortes que não pressinto
são só ajustes de equívocos.
Não atente a este labirinto.

Às vezes, danço uma valsa
em telhado de precipício
– Adágio para chuva e colibri –
do impreciso ao início.

Há só um espaço na vida
onde eu me vivencio
desprendo as velas do cais
e quando vou te visito.





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Minutos de Silêncio








Há textos que se escrevem em silêncio, afinal. Não aquele silêncio físico da inaudibilidade, mas o factual, atávico, tão primordial e peculiar da impressão digital.

(Ele rola e rola a aliança no dedo)

Eu pondero sobre os lótus não nascidos, a ignorância da água sobre a potencialidade da flor. O sol, decerto, jamais se negaria a morrer onde começa a noite, ao redor de um pistilo de lótus, até que este fosse o fio das notas do seu odor.

(Estamos satisfeitos, obrigado)

Não se retoca, não se corrige a latência. O silêncio fala no modo como se faz e não pode ser feito de forma diferente de calar-se numa atitude de quem não roeu a água.

(409, não sei por quê o número me chama a atenção. Somo, multiplico, divido, diminuo, decido: noves fora, 4.)

(Nenhuma sobremesa, senhor?)

A opção que resta à água é não ter que escolher entre duas possibilidades de uma proposição: sim ou não.

(Duas, um café, e nada para mim)

Eu pensava que o deserto de um Ser fosse não ter alguém com a boca à espera de uma palavra sua. Pensava que pensar era ato contínuo à expressão das coisas do lado úmido do porvir, mas isto foi antes de conhecer palavras insolúveis às coisas do pensamento.

Em silêncio, ele girava a aliança, gramaticalmente mergulhado, talvez, nas palavras insolúveis às coisas dos seus pensamentos.

Como o talvez seja a certeza da dúvida, nossos silêncios, enquanto esperávamos o último pedido, eram a continuação de um texto que se escrevia cotidianamente para um futuro de água ou de sol.

Onde estamos a noite anoitece primeiro do lado de fora.

(Pode trazer a conta, agora)

A madrugada deriva imprópria de palavras apenas úteis. Só as crianças e os poetas conseguem desintegrar estrelas e refazê-las libélulas.

O resto é monólogo prolixo de vidro.



Inspirado nos textos "Da Luz dos Olhos à Janela da Alma I, II e III", de Cau Alexandre.






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