quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Exílio







Há só um lugar no mundo
no qual eu me refugio
e tudo faz mais sentido.
Às vezes eu me extravio.

Velas, às vezes, me unem
à sortes que não preciso
mas não atente a estes fatos
são ajustes de equívocos.

Às vezes, danço uma valsa
em telhado de precipício
– Adágio para chuva e colibri –
do impreciso ao início.

Há só um espaço na vida
onde eu me vivencio
desprendo as velas do cais
e quando vou te visito.





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Minutos de Silêncio








Há textos que se escrevem em silêncio, afinal. Não aquele silêncio físico da inaudibilidade, mas o factual, atávico, tão primordial e peculiar da impressão digital.

(Ele rola e rola a aliança no dedo)

Eu pondero sobre os lótus não nascidos, a ignorância da água sobre a potencialidade da flor. O sol, decerto, jamais se negaria a morrer onde começa a noite, ao redor de um pistilo de lótus, até que este fosse o fio das notas do seu odor.

(Estamos satisfeitos, obrigado)

Não se retoca, não se corrige a latência. O silêncio fala no modo como se faz e não pode ser feito de forma diferente de calar-se numa atitude de quem não roeu a água.

(409, não sei por quê o número me chama a atenção. Somo, multiplico, divido, diminuo, decido: noves fora, 4.)

(Nenhuma sobremesa, senhor?)

A opção que resta à água é não ter que escolher entre duas possibilidades de uma proposição: sim ou não.

(Duas, um café, e nada para mim)

Eu pensava que o deserto de um Ser fosse não ter alguém com a boca à espera de uma palavra sua. Pensava que pensar era ato contínuo à expressão das coisas do lado úmido do porvir, mas isto foi antes de conhecer palavras insolúveis às coisas do pensamento.

Em silêncio, ele girava a aliança, gramaticalmente mergulhado, talvez, nas palavras insolúveis às coisas dos seus pensamentos.

Como o talvez seja a certeza da dúvida, nossos silêncios, enquanto esperávamos o último pedido, eram a continuação de um texto que se escrevia cotidianamente para um futuro de água ou de sol.

Onde estamos a noite anoitece primeiro do lado de fora.

(Pode trazer a conta, agora)

A madrugada deriva imprópria de palavras apenas úteis. Só as crianças e os poetas conseguem desintegrar estrelas e refazê-las libélulas.

O resto é monólogo prolixo de vidro.



Inspirado nos textos "Da Luz dos Olhos à Janela da Alma I, II e III", de Cau Alexandre.






domingo, 31 de janeiro de 2010

Poeminha Azul









Pelos arcos do coreto passa um pombo azul
o azul passa no pombo e o voo é todo azul.

As linhas das pipas cortam a tarde azul
a euforia de correr pela pipa ri um riso azul.

O velho olhando a praça tem os olhos de olhar o azul
todo olho numa praça parece ser azul.

Passa um gavião por onde o azul passa
na distância, fim da tarde, a montanha é só azul.

A rua leva a vila, passa o pombo, o gavião passa
o balanço da praça balança azul.

Toda criança é azul.
Todo velho é azul.

Toda lembrança de criança deveria ser azul
todo velho deveria soltar pipas ao céu azul.

Toda rua deveria ter duas idas
e várias voltas e deveria ser azul
toda vila deveria ser tocada por um velho realejo azul.

Todo cinza deveria ser azul
todo dia deveria ser azul

Todo esquecimento deveria ser azul
e a lembrança uma nuance de pintar o azul.

Toda saudade de criança deveria ser azul
a de um velho vir numa aquarela
marrom-azul, roxo-azul
preto-azul, azul-azul...




Dedicado à Fá Lopes






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Contexto




Um texto
uma pausa
na porta
na tinta
no cesto

Íris do arco
da outra

Molhando...
À míngua
mão no céu
da boca

- gota a gota -

Um grão
deflora a ostra
pérola fica

Fim da gênese rota...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Felicidade




Felicidade não é quando a melancolia esmaece
nem quando o desalento perde a persistência.

Não é, igualmente, a comemoração pela tristeza
desprezada a um momento em que não acontece.

É quando eu, sentada à entrada da tua alma,
me dás a olhar lugares sabidos, antigos
com a surpresa de trilhar caminhos antes
despercebidos, estou bem ali e mais nada.

Felicidade é quando a madrugada em seu rito
cantante de primeiros pássaros de todo dia
pousa na janela (meus olhos voam nos teus)
e apenas tu, eu e a felicidade sabemos disso.


Dedicado à Cau Alexandre




sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma História de Amor




Não foi por um acaso que se encontraram. Ela sonhava um moço encantado, olhar seu rosto no riso dele espalhado, no seu corpo, as mãos dele lado a lado. Ele já estava desesperançado, certo de que o tempo de amar e ser amado havia, para sempre definhado no passado. De tanto vento que soprou, o último o levou numa vela crestada por incontáveis horas atrasadas ao encontro do destino esquecido. Foi a paixão dos sábios que eles viveram. O amor dos loucos que os consumiu. E toda estrela que no céu ardia tinha um quê de dó pelo que se destruiu. Era uma concha velha que ninguém ouvia. Era uma praia onde ninguém nadava. Havia sombra em que ninguém deitava, e sobre as falésias ninguém nunca caminhava. Era uma ilha morta que a noite habitava, uma areia fina onde o mar não batia, e como o vento lá já não corria, nunca mais se ouviu as vozes deles na praia vazia.





quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Anos










Agora eu sei o que são os anos: são vagões
que tanto me aproximam das saudades
quanto mais me distanciam das inocências.
Ora, partindo das coisas que param e vão.
Ora, chegando às coisas que ficam assim;
em gesto estremecido do Leste às noitinhas.
Como se fosse gosto. Como se fosse certo.
Como se fosse um outro. Como se fosse perto
esperar o Sol. Agora, sei das coisas minhas.





A todos os amigos, visitantes fiéis, visitantes ocasionais, que me deram a honra de dispensar seus olhos e comentários ao "Brisa Nordeste" no decorrer de 2009, desejo que no Novo Ano nossas horas sejam mais justas, os dias sejam mais plenos, as semanas mais brilhantes e os meses mais maduros. Sobretudo, desejo paz e saúde.






quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Poema de Instante





Inadiáveis sóis
recuam vagas de instante
fosse o vento uma foz.

É, meu amor
neste íntimo afeto
em silêncio modesto

neste esgotar-se interior
neste fazer-se secreto

do ser-se sem ultraje
do bem e do mal além

que o ato de entregar-se
provar-se, gozar-se
é meu e teu também.




Noite



Ela vem clareando os mistérios do dia,
aqueles que não foram revelados,
na intimidade dos suspiros que o meu sorvia.

Alma






Às vezes se dá umas formas de águia,
outras vezes de fênix,
e se sucumbe ao mormaço, tal qual água,
mais tarde, embebe a crueza do cálix.




 

sábado, 12 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

O Tempo das Raízes

Um Conto de Natal




Falta pouco para a meia-noite. Lá fora, o burburinho do dia cede completamente lugar às vozes dos bichos que povoam a região da caatinga. Corujas solitárias singram as sombras, rasgando seu canto agourento. O chilreado dos grilos está a exigir as respostas que, por toda a sua vida, ele não trouxera; e o vento amordaçado, morno, inquieto, passa levando o calor das paredes sujas do cárcere. Os olhos dele correm o piso de pedras irregulares — já as havia visto antes, aquelas pedras —, mas a tentativa da lembrança deixa em suas narinas um cheiro acre de madeira misturado à poeira e ao sangue. No pensamento, vacila um vazio de misericórdia pelos dias imemoriais do povo abrigado no isolamento dos seres da Terra.

As horas escamosas, lerdas, serpentes, sibilam haver chegado o tempo de cumprir as promessas do Criador. O tempo velho do lúmen das estrelas. O tempo das raízes dos cardeiros. Do sal da terra. Dos plânctons do mar. Do mel das flores. No catre de varas, ele abraça o tronco e se encolhe, feto que não lembra ter sido, criança pouco havida. Homem sublimado. A textura do algodão cru da camisola, mais próxima da pele, não o faz desejar o conforto do mundo, tampouco a fé na palavra. Seu conforto é de dor e dor. É o medo que prega o suor. Sua companheira já vem, sem luxos; é pura, sem a cor das estrelas que viu nascerem e se apagarem muito antes que fosse cunhado o verbo que não lhe descreve a face do Pai ou a sua. Antes que o pensamento fosse ato-reflexo de sua própria falta de nexo. A sua existência poderia ter sido a multidão espelhada de semelhanças — por fora, a areia polida atrás do reflexo. Ela cumprirá seu desígnio com a docilidade irracional dos domados. É preciso uma única boa-vontade dos mártires em vão para se alimentar do caldeirão onde os homens fervem suas mentiras, fraudes, fianças e interesses.

A última ceia fora servida sem fome, para o rito cumprido, ao som dos sinos da Igreja agreste a recitar preces que ressoavam:

— Acalma-te. Tempo passado é tempo findo. O tempo que vem surgindo traz o próximo tempo. É direito não ter direito a nenhum deles. Tu ainda és homem. Morre-se.

Esperou sem as culpas que não deu, com pavor e ansiedade: o que estava designado. Esperou. Agora, a réstia das grades da janela do cárcere caminha sobre o chão frio em direção da consumação. Aquela com quem se deitará vem pelas mãos dos tolos para os quais, mais uma vez, pedirá a comiseração do Seu Pai, porque a sua própria já não serve. O portal se abre incandescente, na cor dos seus estigmas.

É hora de morrer em plena ciência e acordar à direita do Verbo que não germinou de larvas haploides, mas do vazio escuro das chamas sob as águas, entre rochas. Em cima do catre, rente às sombras, três cravos de ferro, uma coroa de espinhos e uma folha de jornal que lhe aquecera o frio como lençol. Onde se leem as cotações amassadas das bolsas de valores do mundo inteiro, crimes para comover, a vida de alguém para invejar, intrigas para a discórdia, resultados de jogos para se esquecer, uma data no cabeçalho a definir eventos que se pode saber. Meia-noite. Não há táxis nem mulas. Lenços nem véus. Não há fogos, nem um traque. Nem tristeza para ser de espera e esperança a Nova Era, perto demais dos arsenais. Nem clarim, nem caixa de guerra.

Silêncio. Amém. Misericórdia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Adeus à Ausência








São as mesmas palavras, assim
descoloridas do branco justo,
quando ela se escreve de mim
forçando um hiato absurdo.

E como ela fica a toda hora
prova do que te disse respeito!
Cravada no fundo das portas
daquele adeus contrafeito.

Se eu te arremesso ao lápis
tal qual ponto de incoerência
tem tanta importância o lapso
que te descreve ausência?

Não... Apago-te, borro e rasgo.
Ainda assim tua falta se demora
de repente, de repente visgo.
Então fique. Eu vou embora!



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Resumos



Ensaio de Poema Visual

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Soneto Quase Terno




É quase terno o recorte de uma ilusão,
é, de longe, tão mais estéril e ameno,
desfolhadas suas correntes de verão,
erva senescente de elos tão pequenos.

Vez em quando o dia faísca demasiado,
de outras vezes desfalece com frieza
e o céu se revira bem perto e esfolado,
onde um transe lhe permeie a gentileza.

Certo é que a mágoa trai-nos o senso:
fumaça fria a tentar fundir-se à fria água;
contíguas, trespassam um vazio imenso.

E a ternura é quase nada de pelo menos
se de mãos arregaladas tateia-se a mágoa,
a ilusão e o senso, feitos deles mesmos.





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